Gêmeos digitais: conceitos e aplicações na construção civil

A transformação digital já faz parte da realidade de diversos setores da economia, e a construção civil não está fora desse movimento. Entre os temas que vêm despertando interesse crescente está o conceito de gêmeos digitais, uma abordagem que busca representar virtualmente ativos, sistemas ou processos para apoiar análises e decisões ao longo do tempo.

Embora o assunto ainda seja relativamente novo para muitos profissionais da área, sua relevância tem aumentado à medida que organizações buscam formas mais eficientes de gerenciar informações, acompanhar o desempenho de ativos e integrar dados de diferentes fontes.

Esse cenário ganhou ainda mais destaque com a publicação da NBR ISO/IEC 30173, que estabelece conceitos e terminologias relacionados aos gêmeos digitais.

O que é um gêmeo digital?

De forma simplificada, um gêmeo digital pode ser entendido como uma representação virtual de uma entidade real. Essa entidade pode ser um componente, um equipamento, uma edificação, um sistema ou até mesmo um processo.

O objetivo não é apenas reproduzir visualmente o objeto representado. Em muitos casos, busca-se criar um ambiente digital capaz de reunir informações relevantes para apoiar avaliações, estudos e tomadas de decisão.

Além disso, a utilização de representações digitais permite que informações sejam organizadas e analisadas de maneira mais estruturada, contribuindo para uma melhor compreensão do comportamento dos ativos ao longo de seu ciclo de vida.

A importância da NBR ISO/IEC 30173

A publicação da NBR 30173 representa um passo importante para a consolidação do tema. Apresentada em novembro de 2025, este documento foi elaborado no Comitê Brasileiro de Tecnologias da Informação e Transformação Digital, pela Comissão de Estudo de Internet das Coisas (IoT) e Gêmeos Digitais.

Para relembrar: no blog abordamos brevemente processo de criação de uma norma técnica. Confira AQUI.

Entre os objetivos da norma estão a criação de uma base comum para entendimento dos conceitos relacionados aos gêmeos digitais, a apresentação de uma visão geral de seu ciclo de vida e o estabelecimento de fundamentos para futuras normas, especificações e aplicações.

Em outras palavras, a norma ajuda a reduzir ambiguidades e promove uma linguagem comum entre profissionais, empresas, desenvolvedores de tecnologia e demais interessados no assunto.

Essa padronização é particularmente importante em temas emergentes, nos quais diferentes organizações podem utilizar terminologias distintas para descrever conceitos semelhantes.

Diferentes tipos de gêmeos digitais

Um aspecto interessante apresentado pela norma é a classificação dos diferentes tipos de gêmeos digitais.

Entre eles estão:

  • Gêmeo digital de componente;
  • Gêmeo digital de ativo;
  • Gêmeo digital de sistema;
  • Gêmeo digital de processo.

Essa classificação demonstra que o conceito não está limitado a grandes empreendimentos ou sistemas complexos. Dependendo do objetivo pretendido, a representação digital pode estar associada a elementos específicos ou a conjuntos mais abrangentes.

Consequentemente, o potencial de aplicação pode variar conforme a escala e a complexidade do contexto analisado.

Aplicações potenciais na construção civil

A construção civil reúne características que tornam o tema particularmente interessante.

Empreendimentos costumam envolver grande quantidade de informações técnicas, diversos agentes participantes e ativos que permanecem em operação por muitos anos após a conclusão da obra.

Nesse contexto, os gêmeos digitais podem contribuir para a organização e o gerenciamento dessas informações.

Entre as aplicações frequentemente discutidas no setor estão:

  • Gestão de edificações;
  • Operação e manutenção predial;
  • Infraestrutura urbana;
  • Monitoramento de ativos;
  • Gestão de sistemas prediais;
  • Planejamento de intervenções futuras.

Além disso, o conceito pode apoiar uma visão mais integrada do empreendimento, reunindo informações que muitas vezes permanecem dispersas em documentos, relatórios e diferentes sistemas.

O ciclo de vida como elemento central

Um dos aspectos mais relevantes abordados pela Norma Técnica 30173 é o ciclo de vida do gêmeo digital.

A norma destaca que a entidade física e sua representação digital possuem ciclos de vida distintos, ainda que relacionados entre si.

Essa observação é importante porque reforça que a gestão das informações não precisa se limitar à fase de projeto ou construção.

Por outro lado, ela pode continuar durante a operação, manutenção, modernização e demais etapas da existência do ativo.

Por isso, o interesse pelos gêmeos digitais está frequentemente associado à busca por maior continuidade na gestão das informações ao longo do tempo.

Um tema que tende a evoluir

A existência de uma norma específica demonstra que os gêmeos digitais deixaram de ser apenas uma tendência discutida em ambientes acadêmicos ou tecnológicos.

Embora ainda existam desafios relacionados à adoção, integração de dados e definição de estratégias de implementação, o tema vem conquistando espaço em diferentes segmentos da engenharia.

Além disso, a crescente digitalização dos processos tende a ampliar as discussões sobre como utilizar informações de forma mais eficiente durante todo o ciclo de vida dos ativos.

Nesse cenário, compreender os conceitos fundamentais relacionados aos gêmeos digitais torna-se cada vez mais importante para profissionais e organizações que desejam acompanhar a evolução do setor.

Afinal, independentemente do ritmo de adoção de cada empresa, a transformação digital continua avançando e criando novas possibilidades para a engenharia e a construção civil.

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Kiko Salau

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